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 Alexandre Nallim

  Hipertexto
         &
        Narrativa

HIPERTEXTO & NARRATIVA

 

A história do hipertexto é a história do texto,da mudança na narrativa, aplicada por autores contemporâneos, mas também registradas em anotações de antigos gênios como Leonardo da Vinci. É sobretudo a história do computador.

A literatura impressa nos oferece diversos exemplos de hipertexto que nos permite uma leitura não linear. No ato que o leitor está lendo, o conteúdo o transporta à conexões da memória que o leva fora da linearidade do texto.

            A idéia de hipertexto foi anunciada pela primeira vez pelo matemático e físico Vam Bush, em 1945, quando trabalhava em um sitema para organizar informações. Mas só na década de 60, quando os primeiros sistemas de teleinformática militares foram instalados, que Theodore Nelson, referindo-se ao sistema Xanadu, usou o termo hipertexto para expressar a idéia de escrita/leitura não linear em  informática. Ele tinha como objetivo desenvolver uma imensa rede acessível em tempo real, contendo todas as informações literárias e científicas do mundo, onde milhões de pessoas poderiam usar Xanadu, interagindo e  comentando os textos,vídeos, gravações sonoras e tudo que tivesse disponível na rede.

É interessante lembrar que foi o editor veneziano Aldo Manucio que inventou o estreito caractere itálico e decidiu livrar os textos do aparelho crítico e dos comentários que o acompanhavam há séculos. Foi assim que o livro tornou-se fácil de manejar,de entender e ser apreciado. Até aquele momento, os livros eram gigantescos e mantidos acorrentados nas bibliotecas. Eram gigantescos e pesados livros hipertextos, pois eram acrescentados os comentários relevantes dos diversos leitores ao longo do tempo. Ilustrações, notas de rodapé e notas relativas a outros textos, eram inseridas indefinidamente a obra original. A manipulação do suporte da informação e a criação de novos suportes permitiram uma nova visão e reflexão sobre as tradições e o conhecimento humano. O avanço da ciência e técnica tornou-se o pilar de sustentação para as mudanças radicais do mundo contemporâneo no qual o conhecimento humano desenvolveria.O hipertexto é o resultado direto dos avanços do modo de registro, armazenamento e circulação das informações.São estes avanços que permitem que tenhamos em tempo real todos os textos existentes conectados entre si.  

Descobertas, como as realizadas por Mendel na pesquisa sobre genética, ficaram longo tempo sem avançar devido ao lapso de tempo entre sua publicação e o conhecimento daqueles que poderiam ter dado prosseguimento ao trabalho. Nesta pespectiva a revolução do nosso modo de pensar tornou-se necessária. Nossa forma de armazenar, sistematizar e tornar acessível de forma simples e direta as informações estabeleceria uma nova era para o conhecimento humano.

Um personagem de importância histórica é Douglas Engelbart, diretor da Augmentation Research Center ( ARC ) do Stanford Research Institute. Neste centro de pesquisa foram testados pela primeira vez a tela com múltiplas janelas de trabalho; a possibilidade de manipular, com a ajuda de um mouse, complexos informacionais representados na tela por um símbolo gráfico; as conexões associativas (hipertextuais)  em bancos de dados ou entre documentos escritos por autores diferentes; os gráficos dinâmicos para representar estruturas conceituais ( os sistemas de ajuda ao usuário integrados ao programa ).

Os trabalhos fundamentais destes pioneiros, permitiu o surgimento de pequenas empresas de informática em torno do Vale do Silício nos Estados Unidos.

As categorias conceituais que compõem o universo da chamada comunicação contemporânea não têm características rígidas e guardam entre si uma estreita relação. Noções com interface, interatividade, hipertexto, hipermídia, virtual, ciberespaço, cibercultura e outras, parecem indicar não apenas uma redefinição do papel dos meios de comunicação no contexto histórico e cultural da humanidade, mas um novo direcionamento das relações do homem com tudo que cria, da palavra como ordenação do pensamento ao moderno e sofisticado computador. Se a hipertextualidade não é uma “invenção” moderna, já que encontram-se alguns registros históricos  dessa estrutura narrativa  em obras na Ciência, na literatura e na Filosofia, ela ganha impulso com o avanço da crescente ação dialógica entre o homem e a técnica. Tomando a concepção de hipertextualidade como ponto de convergência de outros conceitos , constatamos que ela revela os limites e por isso mesmo, a falência do discurso tradicionalmente lógico, fechado em si. As infinitas possibilidades de conexões entre trechos de textos e textos inteiros favorecem a flexibilização das fronteiras entre diferentes áreas do conhecimento humano.

Segundo Landow ( 1992), o hipertexto põe em cheque: seqüências fixadas, começo e fim definidos, uma estória de certa magnitude definida e a concepção de unidade e todo, associada a todos esses conceitos. Na narrativa hipertextual, o autor oferece múltiplas possibilidades através das quais os próprios leitores constroem sucessões temporais e escolhem personagens, realizando saltos com base em informações referenciais.

Segundo Heim ( 1993 ), o hipertexto é um modo de interagir com textos e não só uma ferramenta como os processadores de textos. Por sua características, o usuário interliga informações intuitivamente, associativamente. Através de saltos -  que marcam o movimento do hipertexto – o leitor assume um papel ativo, sendo ao mesmo tempo co-autor.

Para Ted Nelson, o hipertexto possibilita  novas formas de ler e escrever, um estilo não linear e associativo , onde a noção de texto primeiro, segundo, original e referência  não existe. Poderíamos adotar com noção de hipertexto assim: o conjunto de informações textuais, podendo estar combinadas com imagens

 ( animadas ou fixas ) e sons, organizadas de forma a permitir uma leitura ( ou navegação ) não linear, baseada em indexações e associações de idéias e conceitos, sob a forma de links. Os links agem como portas virtuais que abrem caminhos para outras informações.

Para Lévy ( 1993), o hipertexto é um conjunto de nós ligados por conexões. Os nós  podem ser palavras , páginas, imagens, gráficos, seqüências sonoras, documentos complexos que podem eles mesmos ser  hipertexto. Os itens de formação não ligados linearmente, como em uma corda como nó, mas cada um deles, ou a maioria, estende suas conexões em estrela, de modo reticular.

Para caracterizar o hipertexto, Lévy recorre a seis princípios, que proporciona uma visão panorâmica , que organiza, resume  e amplia a idéia de rede que se pretende construir.

  • Princípio de metamorfose
  • Princípio de heterogeneidade
  • Princípio de multiplicidade e de encaixe das escalas
  • Princípio de exterioridade
  • Princípio de topologia
  • Princípio de mobilidade dos centros.

      A compreensão de hipertexto para Conklin ( 1987 ), segundo Apud Leiro (1994 ), janelas na tela são associadas com objetos na base de dados e ligações são estabelecidas entre estes objetos, tanto graficamente, na forma de marcas rotuladas, como na base de dados na forma de ponteiros.

Para Smith ( 1988 ), hipertexto é uma bordagem da gestão de informação na qual os dados são armazenados em uma rede de nós conectados por ligações. Os nós podem conter textos , gráficos, áudio e vídeo, bem como programas de computador ou outras formas de dados .

Para Shneiderman & Kearsley ( 1989 ) , o hipertexto pode ser uma rede de nós e ligações entre documentos, onde documento são nós e as ligações são referências cruzadas. As redes podem ter a forma de hiperarquia , embora geralmente as associações entre os nós sejam mais complexas. Os nós ligações não se restringem a textos, mas podem ser gráficos, fotos, sons narração ou seqüência ( vídeo ). Quanto os documentos são de natureza ( tipo ) multimeios, o termo hipermídia é freqüentemente  usado.      

 A idéia de hipertexto eletrônico pode ser nova, mas o exercício da hipertextualidade tem sua origem antes mesmo  da massificação da Internet.

Citando e interpretando textos antigos, recontando ponto de vistas, sendo capaz de criar um diálogo com sua própria cultura, autores contemporâneos com Tomás Aquino, Jorge Luis Borges, Ítalo Calvino e outros, vêem realizando propostas literárias que contrariam a linearidade da narrativa. Isso pode ser considerado como estopim precursor do conceito de hipertexto. 

Ítalo Calvino com seu romance “Se um viajante  numa noite de inverno” pode ser comparado de forma bem interessante  com  a relação que temos hoje com o mundo virtual
( WWW ).

 “Já cansei de ir e vir, tornar e retornar: estou preso em uma armadilha, a armadilha intemporal que as estações ( as homes pages ) infalivelmente nos oferecem. Esta é certamente uma técnica para envolvê-lo pouco a pouco na história ( na navegação ) e seduzi-lo sem que se dê conta disso.

( O hipertexto ) é uma armadilha. Uma chegada a uma velha estação ( sua página inicial = home ), que lhe sugere um retorno a sensação de uma recuperação do tempo e dos lugares perdidos ( todos aqueles que sabemos  que existem na net e nunca vamos dar conta de ir ), ou se uma ebulição de cores e sons ( pages com recursos sonoros ) que lhe causa a sensação de que está vivo hoje.

 ( No hipertexto eletrônico ) cada lugar se comunica instantaneamente com todos os outros, não experimentamos isolamento a não ser no trajeto de um lugar a outro, ( de um endereço eletrônico à outro ), isto é, quando não estamos em nenhum lugar. O que você transpõe é uma descontinuidade, um espaço rompido , você desaparece no vazio, aceita não estar em nenhum lugar.

( Quando estamos no ciberespaço do hipertexto, há ) essa sensação de presença concreta que você experimentou desde as primeiras linhas do texto, é também uma sensação de perda, a vertigem de uma dissolução; mas o que sinto contra mim é somente o ser estranho do outro, como se o outro já estivesse tomado o meu lugar ( o difícil acesso a net nos horários de pico ), todos os lugares, como se eu já tivesse sumido do mundo, eu.  

( Na gramatologia do hipertexto ), através da penosa decifração das palavras aglutinadas, uma narração emerge e se desdobra ( Link ).

Uma coisa está aí, uma coisa feita de escrita, um objeto sólido, material ( o computador, o hardware ), que não pode ser mudado; através desta coisa entra-se em contato com alguma outra, que não está presente ( WWW ), alguma coisa que faz parte do mundo imaterial, invisível, porque é apenas pensável, ou imaginável, ou porque existiu e não existe mais, porque é coisa passada, desaparecida, inacessível, perdida no reino dos mortos... ( quando perdemos nossa conexão ).

( mesmo na net, e aqui também ) É necessário encontrar o fio que perdemos( Se formos analisarmos literalmente, no hipertexto eletrônico), a figura do autor tornou-se plural e se desloca sempre em grupo, porque – além do mais – ninguém pode representar ninguém. Que importa o nome do autor na capa? Transportemo-nos em pensamento para daqui a três mil anos...Deus sabe que livros de nossa época terão sobrevivido, de que autores ainda se lembrará o nome,
( quem sabe!) todos os livros que terão sobrevida serão atribuídos a um misterioso autor único.

(No hipertexto )Você tem medo de ter perdido esta privilegiada relação com o livro que é só a do leitor: o poder de considerar o que está escrito da qual nada se pode subtrair.( agora ) A organização da frase era definitivamente uma responsabilidade que lhe cabia ( a você , leitor); incumbia-lhe controlar a coerência interna da língua escrita, da gramática e da sintaxe, para aí escolher a fluidez de um pensamento que escoa fora de toda língua antes de se fazer palavra,
(uma network com novas formas de ler e de escrever, ocorre a mutação do texto, como já dizia Heim )”

“Como saber o que você é, Leitor?

Você é de natureza depressiva ou eufórica?

Você permanece sempre um dos vocês possíveis ( multivocalidade do hipertexto ). Quem ousaria condená-lo à perda do você, catástrofe não menos terrível que a perda do eu?

( Então você  , leitor, responde :) Mal aproximo meu olho do caleidoscópio

 ( do monitor colorido SVGA ), e já meu espírito, seguindo o reagrupamento e a composição em figuras regulares dos fragmentos heterogêneos, descobre que rumo ( para qual endereço ir, depois  da busca?) tomar através da revelação cintilante e fugaz de uma construção rigorosa que se desfaz ao menor peteleco de unha nas paredes do tubo ( melhor do teclado ) , para ser substituída por outra, onde os mesmos elementos se encontram para formar um conjunto diferente ( uma nova page ).

( No hipertexto  ), nenhuma experiência  é passível de repetição, no fato de que ( se) abrem espaços e tempos diferentes do espaço e do tempo mensuráveis ( e), eu gostaria que todos os detalhes evocassem aqui simultaneamente a imagem de um mecanismo de alta precisão e a de uma seqüência fugaz de alumbramentos que remetessem a alguma coisa que jaz fora do alcance da vista ( uma velha questão: a virtualidade digital está inscrita na realidade Calvino, não podemos vê-la como algo separado da vida “real”?)

Sou eu que continuo a mudar e que vejo coisas novas que de início não havia percebido? Ou será ainda a leitura uma construção que toma forma reunindo um grande número de variáveis, e que não pode repetir duas vezes a mesma configuração? ( A cada visita numa mesma homepage, novas leituras se realizam, novos contextos são percebidos).”

 

Veja as relações entre Landow / Barthes e Calvino.

 

Se um viajante numa noite de inverno,de Italo Calvino

 

Este romance de Italo Calvino contém as seguintes obras:

·        Distanciando-se de Malbork, de Tadeu Bazakbal

·        Debruçado na borda da costa escarpada, de Ukko Ahti

·        Sem temer a vertigem e o vento, de Vorts Viljandi

·        Olha para baixo na espessura das sombras, de Bertrand Valdervelde

·        Em uma rede de linha entrelaçadas, de Silas Flannery

·        Sobre o tapete das folhas iluminadas pela lua, de Takakumi Ikoka

·        Em torno de uma fossa vazia, de Calixto Bandera

·        Que história aguarda , lá embaixo, seu fim?, de Ana’toli Anatólin

  • Pergunta ele, ancioso por escutar o relato, do mesmo autor das “Mil e uma noites”

 

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