HIPERTEXTO &
NARRATIVA
A história do hipertexto é a história do
texto,da mudança na narrativa, aplicada por autores
contemporâneos, mas também registradas em anotações de antigos
gênios como Leonardo da Vinci. É sobretudo a história do
computador.
A literatura impressa nos oferece diversos
exemplos de hipertexto que nos permite uma leitura não linear.
No ato que o leitor está lendo, o conteúdo o transporta à
conexões da memória que o leva fora da linearidade do texto.
A idéia de
hipertexto foi anunciada pela primeira vez pelo matemático e
físico Vam Bush, em 1945, quando trabalhava em um sitema para
organizar informações.
Mas só na década
de 60, quando os primeiros sistemas de teleinformática
militares foram instalados, que Theodore Nelson, referindo-se
ao sistema Xanadu, usou o termo hipertexto para expressar a
idéia de escrita/leitura não linear em informática. Ele tinha
como objetivo desenvolver uma imensa rede acessível em tempo
real, contendo todas as informações literárias e científicas
do mundo, onde milhões de pessoas poderiam usar Xanadu,
interagindo e comentando os textos,vídeos, gravações sonoras
e tudo que tivesse disponível na rede.
É interessante
lembrar que foi o editor veneziano Aldo Manucio que inventou o
estreito caractere itálico e decidiu livrar os textos do
aparelho crítico e dos comentários que o acompanhavam há
séculos. Foi assim que
o livro tornou-se fácil de manejar,de entender e ser
apreciado.
Até aquele
momento, os livros eram gigantescos e mantidos acorrentados
nas bibliotecas. Eram
gigantescos e pesados livros hipertextos, pois eram
acrescentados os comentários relevantes dos diversos leitores
ao longo do tempo.
Ilustrações,
notas de rodapé e notas relativas a outros textos, eram
inseridas indefinidamente a obra original.
A manipulação do suporte da
informação e a criação de novos suportes permitiram uma nova
visão e reflexão sobre as tradições e o conhecimento humano.
O avanço
da ciência e técnica tornou-se o pilar de sustentação para as
mudanças radicais do mundo contemporâneo no qual o
conhecimento humano desenvolveria.O hipertexto é o resultado
direto dos avanços do modo de registro, armazenamento e
circulação das informações.São estes avanços que permitem que
tenhamos em tempo real todos os textos existentes conectados
entre si.
Descobertas, como as
realizadas por Mendel na pesquisa sobre genética, ficaram
longo tempo sem avançar devido ao lapso de tempo entre sua
publicação e o conhecimento daqueles que poderiam ter dado
prosseguimento ao trabalho. Nesta pespectiva a revolução do
nosso modo de pensar tornou-se necessária.
Nossa forma de
armazenar, sistematizar e tornar acessível de forma simples e
direta as informações estabeleceria uma nova era para o
conhecimento humano.
Um personagem de
importância histórica é Douglas Engelbart, diretor da
Augmentation Research Center ( ARC ) do Stanford Research
Institute. Neste centro de pesquisa foram testados pela
primeira vez a tela com múltiplas janelas de trabalho; a
possibilidade de manipular, com a ajuda de um mouse, complexos
informacionais representados na tela por um símbolo gráfico;
as conexões associativas (hipertextuais) em bancos de dados
ou entre documentos escritos por autores diferentes; os
gráficos dinâmicos para representar estruturas conceituais
( os sistemas de ajuda ao usuário integrados ao programa ).
Os trabalhos fundamentais destes pioneiros,
permitiu o surgimento de pequenas empresas de informática em
torno do Vale do Silício nos Estados Unidos.
As categorias conceituais que compõem o
universo da chamada comunicação contemporânea não têm
características rígidas e guardam entre si uma estreita
relação. Noções com interface, interatividade, hipertexto,
hipermídia, virtual, ciberespaço, cibercultura e outras,
parecem indicar não apenas uma
redefinição do papel dos meios de comunicação no contexto
histórico e cultural da humanidade, mas um novo direcionamento
das relações do homem com tudo que cria, da palavra como
ordenação do pensamento ao moderno e sofisticado computador.
Se a hipertextualidade não é uma “invenção” moderna, já que
encontram-se alguns registros históricos dessa estrutura
narrativa em obras na Ciência, na literatura e na Filosofia,
ela ganha impulso com o avanço da crescente ação dialógica
entre o homem e a técnica. Tomando a concepção de
hipertextualidade como ponto de convergência de outros
conceitos , constatamos que ela revela os limites e por isso
mesmo, a falência do discurso tradicionalmente lógico, fechado
em si. As infinitas possibilidades de conexões entre trechos
de textos e textos inteiros favorecem a flexibilização das
fronteiras entre diferentes áreas do conhecimento humano.
Segundo Landow ( 1992), o hipertexto põe em cheque: seqüências
fixadas, começo e fim definidos, uma estória de certa
magnitude definida e a concepção de unidade e todo, associada
a todos esses conceitos. Na narrativa hipertextual, o autor
oferece múltiplas possibilidades através das quais os próprios
leitores constroem sucessões temporais e escolhem personagens,
realizando saltos com base em informações referenciais.
Segundo Heim (
1993 ), o hipertexto é um modo de interagir com textos e não
só uma ferramenta como os processadores de textos. Por sua
características, o usuário interliga informações
intuitivamente, associativamente. Através de saltos - que
marcam o movimento do hipertexto – o leitor assume um papel
ativo, sendo ao mesmo tempo co-autor.
Para Ted Nelson,
o hipertexto possibilita novas formas de ler e escrever, um
estilo não linear e associativo , onde a noção de texto
primeiro, segundo, original e referência não existe.
Poderíamos adotar com noção de hipertexto assim: o conjunto de
informações textuais, podendo estar combinadas com imagens
( animadas ou
fixas ) e sons, organizadas de forma a permitir uma leitura (
ou navegação ) não linear, baseada em indexações e associações
de idéias e conceitos, sob a forma de links. Os links agem
como portas virtuais que abrem caminhos para outras
informações.
Para Lévy (
1993), o hipertexto é um conjunto de nós ligados por conexões.
Os nós podem ser palavras , páginas, imagens, gráficos,
seqüências sonoras, documentos complexos que podem eles mesmos
ser hipertexto. Os itens de formação não ligados linearmente,
como em uma corda como nó, mas cada um deles, ou a maioria,
estende suas conexões em estrela, de modo reticular.
Para
caracterizar o hipertexto, Lévy recorre a seis princípios, que
proporciona uma visão panorâmica , que organiza, resume e
amplia a idéia de rede que se pretende construir.
-
Princípio de metamorfose
-
Princípio de heterogeneidade
-
Princípio de multiplicidade e de encaixe das
escalas
-
Princípio de exterioridade
-
Princípio de topologia
-
Princípio de mobilidade dos centros.
A
compreensão de hipertexto para Conklin ( 1987 ), segundo Apud
Leiro (1994 ), janelas na tela são associadas com objetos na
base de dados e ligações são estabelecidas entre estes
objetos, tanto graficamente, na forma de marcas rotuladas,
como na base de dados na forma de ponteiros.
Para Smith (
1988 ), hipertexto é uma bordagem da gestão de informação na
qual os dados são armazenados em uma rede de nós conectados
por ligações. Os nós podem conter textos , gráficos, áudio e
vídeo, bem como programas de computador ou outras formas de
dados .
Para Shneiderman
& Kearsley ( 1989 ) , o hipertexto pode ser uma rede de nós e
ligações entre documentos, onde documento são nós e as
ligações são referências cruzadas. As redes podem ter a forma
de hiperarquia , embora geralmente as associações entre os nós
sejam mais complexas. Os nós ligações não se restringem a
textos, mas podem ser gráficos, fotos, sons narração ou
seqüência ( vídeo ). Quanto os documentos são de natureza (
tipo ) multimeios, o termo hipermídia é freqüentemente
usado.
A idéia de hipertexto eletrônico pode ser
nova, mas o exercício da hipertextualidade tem sua origem
antes mesmo da massificação da Internet.
Citando e interpretando textos antigos,
recontando ponto de vistas, sendo capaz de criar um diálogo
com sua própria cultura, autores contemporâneos com Tomás
Aquino, Jorge Luis Borges, Ítalo Calvino e outros, vêem
realizando propostas literárias que contrariam a linearidade
da narrativa. Isso pode ser considerado como estopim precursor
do conceito de hipertexto.
Ítalo Calvino
com seu romance “Se um viajante numa noite de inverno” pode
ser comparado de forma bem interessante com a relação que
temos hoje com o mundo virtual
( WWW ).
“Já cansei de
ir e vir, tornar e retornar: estou preso em uma armadilha, a
armadilha intemporal que as estações ( as homes pages )
infalivelmente nos oferecem. Esta é certamente uma técnica
para envolvê-lo pouco a pouco na história ( na navegação ) e
seduzi-lo sem que se dê conta disso.
( O hipertexto )
é uma armadilha. Uma chegada a uma velha estação ( sua página
inicial = home ), que lhe sugere um retorno a sensação de uma
recuperação do tempo e dos lugares perdidos ( todos aqueles
que sabemos que existem na net e nunca vamos dar conta de ir
), ou se uma ebulição de cores e sons ( pages com recursos
sonoros ) que lhe causa a sensação de que está vivo hoje.
( No hipertexto
eletrônico ) cada lugar se comunica instantaneamente com todos
os outros, não experimentamos isolamento a não ser no trajeto
de um lugar a outro, ( de um endereço eletrônico à outro ),
isto é, quando não estamos em nenhum lugar. O que você
transpõe é uma descontinuidade, um espaço rompido , você
desaparece no vazio, aceita não estar em nenhum lugar.
(
Quando estamos no ciberespaço do hipertexto, há ) essa
sensação de presença concreta que você experimentou
desde as primeiras linhas do texto, é também uma sensação de
perda, a vertigem de uma dissolução; mas o que sinto contra
mim é somente o ser estranho do outro, como se o outro já
estivesse tomado o meu lugar ( o difícil acesso a net nos
horários de pico ), todos os lugares, como se eu já tivesse
sumido do mundo, eu.
( Na
gramatologia do hipertexto ), através da penosa decifração das
palavras aglutinadas, uma narração emerge e se desdobra ( Link
).
Uma coisa está
aí, uma coisa feita de escrita, um objeto sólido, material ( o
computador, o hardware ), que não pode ser mudado; através
desta coisa entra-se em contato com alguma outra, que não está
presente ( WWW ), alguma coisa que faz parte do mundo
imaterial, invisível, porque é apenas pensável, ou imaginável,
ou porque existiu e não existe mais, porque é coisa passada,
desaparecida, inacessível, perdida no reino dos mortos... (
quando perdemos nossa conexão ).
( mesmo na net, e aqui também ) É necessário encontrar o fio
que perdemos( Se formos analisarmos literalmente, no
hipertexto eletrônico), a figura do autor tornou-se plural e
se desloca sempre em grupo, porque – além do mais – ninguém
pode representar ninguém. Que importa o nome do autor na capa?
Transportemo-nos em pensamento para daqui a três mil
anos...Deus sabe que livros de nossa época terão sobrevivido,
de que autores ainda se lembrará o nome,
( quem sabe!) todos os livros que terão sobrevida serão
atribuídos a um misterioso autor único.
(No hipertexto
)Você tem medo de ter perdido esta privilegiada relação com o
livro que é só a do leitor: o poder de considerar o que está
escrito da qual nada se pode subtrair.( agora ) A organização
da frase era definitivamente uma responsabilidade que lhe
cabia ( a você , leitor); incumbia-lhe controlar a coerência
interna da língua escrita, da gramática e da sintaxe, para aí
escolher a fluidez de um pensamento que escoa fora de toda
língua antes de se fazer palavra,
(uma network com novas formas de ler e de escrever, ocorre a
mutação do texto, como já dizia Heim )”
“Como saber o
que você é, Leitor?
Você é de
natureza depressiva ou eufórica?
Você permanece
sempre um dos vocês possíveis ( multivocalidade do hipertexto
). Quem ousaria condená-lo à perda do você, catástrofe não
menos terrível que a perda do eu?
( Então você ,
leitor, responde :) Mal aproximo meu olho do caleidoscópio
( do monitor
colorido SVGA ), e já meu espírito, seguindo o reagrupamento e
a composição em figuras regulares dos fragmentos heterogêneos,
descobre que rumo ( para qual endereço ir, depois da busca?)
tomar através da revelação cintilante e fugaz de uma
construção rigorosa que se desfaz ao menor peteleco de unha
nas paredes do tubo ( melhor do teclado ) , para ser
substituída por outra, onde os mesmos elementos se encontram
para formar um conjunto diferente ( uma nova page ).
( No hipertexto ), nenhuma experiência é passível de
repetição, no fato de que ( se) abrem espaços e tempos
diferentes do espaço e do tempo mensuráveis ( e), eu gostaria
que todos os detalhes evocassem aqui simultaneamente a imagem
de um mecanismo de alta precisão e a de uma seqüência fugaz de
alumbramentos que remetessem a alguma coisa que jaz fora do
alcance da vista ( uma velha questão: a virtualidade digital
está inscrita na realidade Calvino, não podemos vê-la como
algo separado da vida “real”?)
Sou eu que
continuo a mudar e que vejo coisas novas que de início não
havia percebido? Ou será ainda a leitura uma construção que
toma forma reunindo um grande número de variáveis, e que não
pode repetir duas vezes a mesma configuração? ( A cada visita
numa mesma homepage, novas leituras se realizam, novos
contextos são percebidos).”
Veja as relações
entre Landow / Barthes e Calvino.
Se um viajante numa noite de inverno,de Italo
Calvino
Este romance de
Italo Calvino contém as seguintes obras:
·
Distanciando-se de Malbork, de Tadeu Bazakbal
·
Debruçado na borda da costa escarpada, de Ukko Ahti
·
Sem temer a vertigem e o vento, de Vorts Viljandi
·
Olha para baixo na espessura das sombras, de Bertrand
Valdervelde
·
Em
uma rede de linha entrelaçadas, de Silas Flannery
·
Sobre o tapete das folhas iluminadas pela lua, de Takakumi
Ikoka
·
Em
torno de uma fossa vazia, de Calixto Bandera
·
Que história aguarda , lá embaixo, seu fim?, de Ana’toli
Anatólin
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Pergunta ele, ancioso por escutar o relato,
do mesmo autor das “Mil e uma noites”
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